A Estética do Acaso: Como o Erro Técnico Criou a Fotografia Moderna
- Coelho Latino

- 27 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
O Elogio da Imperfeição
Vivemos na era da nitidez obsessiva. Os nossos bolsos carregam sensores capazes de captar detalhes invisíveis ao olho humano e algoritmos de Inteligência Artificial que corrigem, em milissegundos, qualquer desfoque, ruído ou desvio de luz. Mas, ironicamente, quanto mais perfeitas se tornam as nossas câmaras, mais procuramos as "falhas" do passado. Por que razão gastamos fortunas em lentes antigas com defeitos óticos ou aplicamos filtros que sujam as nossas imagens digitais com grão e manchas de luz?
A resposta reside na Arqueologia do Erro. Durante décadas, um lens flare que atravessava o enquadramento ou uma dupla exposição acidental eram vistos como fracassos técnicos, desperdícios de película que terminavam no caixote do lixo. No entanto, foram esses mesmos "acidentes" que ensinaram os fotógrafos a ver o que a máquina não deveria mostrar.
Neste artigo, vamos escavar os arquivos da história da fotografia para descobrir como o erro deixou de ser um problema técnico para se tornar uma linguagem artística. Vamos perceber como a mancha, o grão e o desfoque humanizam a imagem e por que razão, num mundo de perfeição sintética, o erro é o nosso último reduto de autenticidade.
O Flare: Da Lente Suja à Linguagem Cinematográfica
Durante grande parte do século XX, os fabricantes de lentes como a Zeiss ou a Leica travavam uma guerra contra o flare. Investiam milhões no desenvolvimento de revestimentos (coatings) químicos para garantir que a luz passasse pelo vidro sem ricochetear internamente. O objetivo era a pureza. Mas o erro foi persistente e, eventualmente, conquistou-nos.
1. A Anatomia do Acidente
O flare ocorre quando a luz de uma fonte intensa (como o sol ou um refletor) atinge diretamente a lente, refletindo-se entre os vários elementos de vidro internos.
O resultado: Polígonos de luz colorida, névoas que reduzem o contraste e uma sensação de "lavado" na imagem.
2. A Viragem: Do Erro ao Naturalismo
A grande mudança aconteceu quando o público e os artistas começaram a associar o flare à presença física da câmara.
Anos 60 e 70: No cinema da Nova Vaga e no estilo New Hollywood, o flare começou a ser deixado de propósito. Ele dizia ao espetador: "Isto é real, estamos aqui, o sol é tão forte que a câmara mal o consegue conter."
O efeito psicológico: O flare cria uma sensação de calor, de verão e de sonho. Ele "aquece" a imagem digital, que por natureza é fria e matemática.
3. Referências Icónicas
Seguem alguns nomes que transformaram este erro numa assinatura:
No Cinema: J.J. Abrams famoso pelo uso excessivo de lens flares azuis em Star Trek para dar um aspeto futurista ou Terrence Malick, que usa a luz solar a entrar na lente para criar uma atmosfera espiritual e orgânica.
Na Fotografia de Moda: Ellen von Unwerth, que utilizam luzes estouradas e reflexos para criar uma estética rebelde, jovem e menos "posada".
4. O Paradoxo Moderno: O Flare Sintético
O facto de hoje os motores de renderização de videojogos e os filtros de Instagram simularem matematicamente um erro ótico.
Se o flare é um erro, por que o adicionamos digitalmente? Porque sentimos falta da imperfeição orgânica. O erro é o que nos convence de que o que estamos a ver é "verdadeiro".
"O flare é o fantasma na máquina; é o momento em que a luz se torna visível em vez de apenas iluminar os objetos."
A Dupla Exposição: O Acidente que Criou o Surrealismo
No tempo da película em filme, a dupla exposição era o erro mais temido pelos principiantes. Acontecia quando o fotógrafo se esquecia de avançar o rolo e disparava uma segunda vez sobre o mesmo pedaço de película. O resultado era, muitas vezes, uma confusão de formas sobrepostas que acabava no lixo. No entanto, para os artistas de vanguarda, este "esquecimento" tornou-se o pincel com que pintavam o impossível.
1. A Quebra da Lógica Espacial
Diferente do flare, que é um fenómeno de luz, a dupla exposição é um fenómeno de tempo e espaço.
O conceito: Duas realidades diferentes ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo. Isto quebra a regra número um da fotografia tradicional: a de que ela é um registo fiel e único da realidade.
A estética: O erro cria transparências fantasmagóricas, onde uma paisagem pode crescer dentro do perfil de um rosto, ou uma árvore pode fundir-se com a arquitetura de uma cidade.
2. O Erro como Ferramenta Surrealista
Como o movimento Surrealista (anos 20 e 30) abraçou este acidente.
Man Ray: Um dos maiores exemplos. Ele experimentava com exposições múltiplas e "solarizações" para criar imagens que pareciam vir diretamente do subconsciente.
A ideia: Se a fotografia era vista como algo demasiado "real" e "literal", a dupla exposição era a forma de a tornar abstrata e poética. Ela permitia fotografar não o que o olho via, mas o que o pensamento imaginava.
3. De "Erro de Amador" a Técnica de Prestígio
É interessante notar a evolução da perceção deste erro:
Fase 1: O erro técnico (o amador que estragou a foto do aniversário).
Fase 2: A experimentação artística (as vanguardas europeias).
Fase 3: A funcionalidade integrada. As câmaras analógicas mais sofisticadas (como as Nikon FM ou as Canon AE-1) acabaram por incluir um botão específico para permitir a dupla exposição sem avançar o filme. A indústria rendeu-se ao erro e transformou-o numa "funcionalidade".
4. A Nostalgia do Acaso no Digital
Hoje, qualquer pessoa com o Photoshop ou uma aplicação de telemóvel pode sobrepor duas imagens. Mas há uma diferença fundamental que se pode destacar:
O risco: No analógico, a dupla exposição era um ato de fé. Não sabias exatamente como as luzes de uma foto iam reagir com as sombras da outra até revelares o filme.
O encanto: É precisamente essa falta de controlo total (o elemento "acaso") que torna as duplas exposições analógicas tão mais orgânicas e surpreendentes do que as montagens digitais perfeitas.
"Na dupla exposição, a câmara deixa de ser um espelho da realidade para se tornar num projetor de sonhos, provando que dois erros, quando sobrepostos, podem criar uma verdade artística."
O Grão e o Ruído: A Textura da Emoção
Na busca incessante pela nitidez, a tecnologia tentou erradicar a "textura" da fotografia. Mas, ao fazê-lo, descobrimos que uma imagem perfeitamente limpa pode ser, por vezes, uma imagem sem alma. O grão (no analógico) e o ruído (no digital) são os elementos que nos lembram que a luz tem corpo.
1. O Grão Analógico: A "Areia" da Memória
O grão não é um pixel; são minúsculos cristais de prata que não foram expostos à luz de forma uniforme.
O Erro: Usar um filme de alta sensibilidade (ISO 1600 ou 3200) em situações de pouca luz resultava numa imagem "granulada". Originalmente, isto era visto como uma limitação técnica — a fotografia perdia detalhe.
A Emoção: Com o tempo, o grão passou a ser associado ao realismo e à proximidade. Pensa na fotografia de guerra de Robert Capa ou no fotojornalismo de rua. O grão confere uma sensação de urgência, de algo que foi captado "no momento", sem o polimento de um estúdio.
2. O Ruído Digital: O "Primo Feio" que Aprendemos a Aceitar
Aqui é importante fazer a distinção técnica, e saber a diferença:
Ruído vs. Grão: Enquanto o grão é orgânico e aleatório (como areia espalhada), o ruído digital (aqueles pontinhos coloridos, verdes e roxos, nas sombras) é um erro de processamento elétrico do sensor.
A Redenção: Durante anos, o ruído foi o inimigo número um. Hoje, fotógrafos contemporâneos usam o ruído digital pesado para criar uma estética "Lo-Fi" (Low Fidelity), que foge ao aspeto clínico e perfeito das câmaras de alta resolução. É a estética do "cru", do direto e do autêntico.
3. A Ironia dos Sensores Modernos
Este é um ponto de reflexão interessante:
Fabricamos sensores capazes de ver quase no escuro total sem ruído (ISO 50.000 ou mais), mas depois os fotógrafos profissionais vão ao Lightroom e adicionam grão artificial na pós-produção.
Porquê? Porque o grão "une" os elementos da imagem. Ele cria uma camada de textura que suaviza as transições de cor e dá à fotografia uma qualidade tátil, quase como se pudéssemos tocar no papel.
4. Fotógrafos de Referência
Daido Moriyama: O mestre japonês que fez do "erro" a sua assinatura. As suas fotos são famosas por serem Are, Bure, Boke (Ásperas, Desfocadas e Granuladas). Ele provou que o grão extremo pode ser mais expressivo do que a nitidez absoluta.
O Movimento e o Desfoque: A Estética da Velocidade
Se perguntasses a um fotógrafo do século XIX qual era o seu maior medo, ele responderia: o movimento. Devido aos longos tempos de exposição, qualquer pequeno gesto transformava uma pessoa num "fantasma". O objetivo era a imobilidade absoluta. No entanto, quando os fotógrafos aprenderam a abraçar o desfoque, a fotografia ganhou algo que lhe faltava: ritmo.
1. O Desfoque de Movimento (Motion Blur): Captar o Tempo
O erro acontece quando a velocidade do obturador é demasiado lenta para "congelar" o que se move.
O Erro: Uma mão tremida ou um carro que passa e fica registado como um borrão.
A Arte: O desfoque de movimento permite-nos ver o tempo a passar dentro de um único fotograma. É a diferença entre uma foto estática de um desportista e uma imagem que transmite a vertigem da velocidade.
2. O Panning: O Erro Controlado
O panning é o exemplo perfeito de como a técnica evoluiu a partir de uma falha. Ao acompanhar o movimento do objeto com a câmara enquanto se dispara:
O objeto fica (relativamente) nítido.
O fundo transforma-se em linhas de velocidade.
O efeito: Transforma uma imagem banal numa cena cheia de energia e direção.
3. Ernst Haas e a "Pintura com Luz"
Não se pode escrever sobre este tema sem mencionar Ernst Haas. Ele foi um dos pioneiros a usar o desfoque de movimento de forma puramente artística.
Nas suas fotos de touradas ou de corridas de cavalos, Haas não queria mostrar o animal perfeitamente focado; ele queria mostrar a cor e a energia do movimento. As suas fotos parecem pinturas impressionistas, onde o erro de nitidez é, na verdade, a alma da composição.
4. O Bokeh e o Desfoque Seletivo (Out-of-Focus)
Muitas vezes confundido com erro de focagem, o desfoque de fundo (bokeh) é hoje uma das características mais desejadas (e simuladas pelos telemóveis no "Modo Retrato").
A Psicologia: O desfoque ajuda o cérebro a decidir o que é importante. Ao "errar" a focagem em tudo o que não é o sujeito, criamos uma hierarquia visual e um isolamento poético que a visão humana normal não consegue replicar.
Conclusão: O Manifesto do Erro
Num mundo onde a perfeição é gerada por algoritmos, o erro é o que nos resta de puramente humano. O flare, a dupla exposição, o grão e o desfoque não são falhas; são as cicatrizes da luz no suporte físico. São a prova de que a fotografia não é apenas um cálculo matemático de exposição, mas um encontro imperfeito entre o olhar de quem fotografa e a imprevisibilidade do mundo.
"Na próxima vez que fores fotografar, não apagues logo aquela foto tremida ou com luz a mais. Olha para ela outra vez: talvez tenhas acabado de captar algo mais real do que a própria realidade."
















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