Além do Utilitário: Bela Silva, Joana Vasconcelos e Vasco Futscher
- 4 de dez. de 2025
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Em tempos, a cerâmica portuguesa era vista quase exclusivamente através da lente do artesanato regional ou da funcionalidade doméstica. No entanto, hoje vivemos uma realidade diferente. Nas mãos de artistas contemporâneos, o barro deixou de ser apenas um suporte para se tornar um manifesto: uma matéria orgânica que pulsa, conta histórias e ocupa o espaço com a força da escultura.
No centro desta revolução estética encontramos Bela Silva. O seu trabalho é uma viagem ao imaginário do fantástico, onde o gesto é livre e a cor é protagonista. Mas Bela não está isolada nesta exploração. Artistas como Joana Vasconcelos e Vasco Futscher partilham com ela este 'desassossego' criativo, embora por caminhos distintos.
Enquanto Vasconcelos utiliza a cerâmica para questionar a escala e os ícones da cultura popular, elevando o tradicional ao monumental, Futscher despe a matéria de artifícios, revelando uma beleza crua e instintiva. Juntos, estes nomes formam um panorama vibrante da cerâmica atual em Portugal — uma arte que honra o passado, mas que tem os pés (e as mãos) firmemente assentes na contemporaneidade."
Bela Silva e o Bestiário Imaginário: Onde o Barro Ganha Voz
Se há uma palavra que define o trabalho de Bela Silva, essa palavra é narrativa. Ao contrário da cerâmica minimalista que procura a perfeição da linha, Bela abraça o excesso e a imperfeição do gesto. As suas peças parecem estar em constante mutação, como se tivessem sido interrompidas a meio de um movimento.
O Estilo "Barroco Contemporâneo"
Bela Silva é frequentemente associada a uma estética neo-barroca. Há nela uma rejeição pelo vazio e um amor pela exuberância. As suas esculturas e painéis de azulejos são povoados por:
Criaturas Híbridas: Pássaros que parecem humanos, peixes com texturas de plantas e animais que parecem saídos de um gabinete de curiosidades do século XVIII.
A Cor como Emoção: O uso de vidrados coloridos não é meramente decorativo; ele serve para dar peso e drama às peças. Os azuis profundos, os verdes vegetais e os amarelos solares são a sua assinatura.
O Diálogo entre o Passado e o Presente
Bela Silva vive entre Lisboa e Bruxelas, e isso influencia a sua obra. Ela consegue unir a tradição da faiança portuguesa com uma liberdade criativa que aprendeu lá fora. Não há medo de errar, de deixar a marca dos dedos no barro ou de permitir que o vidrado escorra.
"Para Bela Silva, a cerâmica não é um objeto estático para ser admirado de longe, mas uma personagem que ocupa a sala."
Enquanto Bela Silva cria um "bestiário" orgânico e quase místico, criando um mundo de "dentro para fora" (focado no sonho e no imaginário), Vasconcelos faz o caminho inverso: ela olha para os símbolos que todos conhecemos e transforma-os em algo impossível de ignorar. Pega na tradição (como as rãs ou lagostas de Bordallo Pinheiro) e dá-lhes uma dimensão pop e monumental.
Joana Vasconcelos: A Tradição em Escala Monumental
Se Bela Silva é a mística da cerâmica, Joana Vasconcelos é a sua estratega e provocadora. A sua relação com o barro é indissociável da herança de Rafael Bordallo Pinheiro, o mestre que, no século XIX, já misturava o naturalismo com o humor.
O Diálogo com Bordallo Pinheiro
Vasconcelos não molda necessariamente todas as suas figuras do zero como a Bela Silva. A sua genialidade reside na apropriação e recontextualização:
O Bestiário Popular: Ela pega nas formas icónicas da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha — as rãs, os lagartos, os gatos e as vespas — e retira-lhes a função meramente decorativa.
O "Casulo" de Crochet: Uma das suas assinaturas mais fortes é revestir estas cerâmicas com redes de crochet artesanal. Este gesto cria um contraste fascinante entre a dureza vidrada da cerâmica e a delicadeza (quase proteção) do fio, unindo duas tradições artesanais portuguesas num objeto de arte contemporânea.
A Escala como Manifesto
Enquanto Bela Silva nos convida a aproximarmo-nos para ver os detalhes do seu "jardim", Vasconcelos obriga-nos a recuar. Ao agigantar animais ou ao criar estruturas como o famoso "Bolo de Noiva" (uma instalação monumental em cerâmica), ela eleva o barro ao estatuto de arquitetura.
"Para Vasconcelos, a cerâmica portuguesa não é uma relíquia do passado, mas uma linguagem viva que pode (e deve) ocupar os grandes museus e palácios do mundo."
Ambas partilham o horror vacui (o medo do vazio). Ambas gostam de preencher o espaço com cor, textura e formas que remetem para a natureza, mas enquanto a Bela o faz de forma lírica, a Joana faz de forma pop e satírica.
Da Exuberância à Essência da Matéria
Ao observarmos o diálogo entre a obra de Bela Silva e Joana Vasconcelos, percebemos que a cerâmica contemporânea portuguesa recuperou o seu direito ao espetáculo. Seja através do imaginário onírico de Silva ou da escala monumental e subversiva de Vasconcelos, há um elemento comum: o barro como uma ferramenta de afirmação cultural e visual. Ambas ocupam o espaço com uma densidade quase barroca, onde a cor e a forma servem para contar histórias sobre quem somos e como sonhamos.
No entanto, para compreender a totalidade desta 'nova era' da cerâmica em Portugal, é necessário olhar também para o lado oposto desta exuberância. Se Bela e Joana nos levam para o campo da narrativa e do conceito, existe uma terceira via que nos devolve à terra no seu estado mais puro.
É aqui que surge o trabalho de Vasco Futscher. Se nas artistas anteriores o barro é o suporte para uma encenação, em Futscher o barro é, ele próprio, o protagonista absoluto. É uma transição do 'fazer para mostrar' para o 'fazer para sentir', onde a sofisticação não reside no adorno, mas na honestidade brutal da matéria manipulada.
Ele será o contraponto perfeito: o regresso à terra, à matéria crua e a uma cerâmica que é quase "punk" na sua simplicidade e força.
Vasco Futscher: A Poesia da Matéria Crua
Se Bela Silva é o sonho e Joana Vasconcelos é o manifesto, Vasco Futscher representa o instinto. O seu trabalho afasta-se da sofisticação dos vidrados brilhantes e das escalas monumentais para se focar na relação física, quase primitiva, entre o artista e o barro.
A Estética do "Inacabado"
Futscher é um artista que não tem medo da imperfeição; pelo contrário, ele celebra-a. As suas peças parecem muitas vezes objetos arqueológicos acabados de resgatar do solo.
O Gesto Visível: Ao contrário da cerâmica industrial, aqui vemos as marcas de pressão, os cortes e as irregularidades. É uma cerâmica que não pede desculpa por ser barro.
A Cor da Terra: Enquanto as artistas anteriores usam uma paleta vibrante, Vasco trabalha frequentemente com tons mais sóbrios — ocres, pretos, brancos sujos e a cor natural da terracota. Isto permite que o foco do observador esteja na forma e na textura.
O Diálogo com o Desenho
Vasco Futscher é também pintor e desenhador, e isso transparece na sua cerâmica. As suas esculturas parecem "desenhos tridimensionais". Há uma liberdade de traço que se traduz em figuras antropomórficas, rostos expressivos e formas orgânicas que parecem ter vida própria, mas uma vida mais silenciosa e introspectiva que as de Bela Silva.
"O trabalho de Futscher recorda-nos que a cerâmica é, antes de tudo, um ato de escavação da própria alma através da matéria."
O Que os Três Têm em Comum?
Vamos sintetizar o que une estes três nomes tão distintos:
A Rejeição do Óbvio: Nenhum deles faz cerâmica "bonitinha" para decorar prateleiras; eles fazem arte que desafia o olhar.
A Identidade Portuguesa: Seja através da tradição (Vasconcelos), da herança barroca (Silva) ou da ligação telúrica à terra (Futscher), os três respiram a cultura visual de Portugal.
A Liberdade: Todos eles quebraram com a ideia de que a cerâmica é uma "arte menor".
Conclusão: A Revolução do Barro – Da Terra ao Templo da Arte
Ao percorrermos os universos de Bela Silva, Joana Vasconcelos e Vasco Futscher, torna-se evidente que a cerâmica em Portugal vive um momento de rutura e glória. O que antes era relegado para a prateleira do artesanato ou para o armário do utilitário, ganhou o seu lugar por direito próprio no pedestal da arte contemporânea.
Estes três artistas, cada um à sua maneira, provaram que a simplicidade do barro é, afinal, a sua maior força. Eles não viram na lama um material menor, mas sim uma matéria-prima de infinitas possibilidades:
Com Bela Silva, aprendemos que o barro pode ser poesia e viagem;
Com Joana Vasconcelos, percebemos que ele pode ser um grito político e um ícone de escala mundial;
Com Vasco Futscher, fomos recordados de que a beleza reside na sua crueza mais honesta e primitiva.
O que mudou não foi a matéria — o barro continua a ser a terra que pisamos — mas sim o olhar. Através das mãos destes criadores, a cerâmica portuguesa despiu-se do preconceito da 'simplicidade' para se vestir de audácia. Hoje, olhar para uma peça de cerâmica não é apenas contemplar um objeto decorativo; é testemunhar a sobrevivência de uma tradição milenar que soube reinventar-se, tornando-se mais relevante, provocadora e vibrante do que nunca.
Qual destas abordagens mais ressoa consigo: a exuberância de Bela, a escala de Joana ou a crueza de Vasco?













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